domingo, 9 de maio de 2010

Estilo UFPA de redação

GRADE DE CORREÇÃO DA PROVA DE REDAÇÃO

TEMA A SER DESENVOLVIDO - Relações de cordialidade entre brasileiros

TESE A SE CONSIDERAR - Há relações de cordialidade entre brasileiros por motivações positivas

ABORDAGENS DO TEMA PLAUSÍVEIS

1- O candidato defende, com argumentos consistentes, uma concepção positiva de cordialidade entre brasileiros.

2- O candidato narra um episódio de cordialidade entre brasileiros, numa perspectiva positiva.

3- O candidato descreve uma situação de cordialidade entre brasileiros, numa perspectiva positiva.

CASOS EM QUE A ABORDAGEM DO TEMA ESTÁ PARCIALMENTE COMPROMETIDA

1- O candidato defende, com argumentos pouco consistentes, uma concepção positiva de cordialidade entre brasileiros.

2- O candidato aborda outros conceitos que implicam solidariedade, gentileza, humildade, generosidade, mas não se atém unicamente à cordialidade.

3- O candidato defende uma concepção positiva de cordialidade, mas não deixa explícito o contexto brasileiro.

CASOS EM QUE A ABORDAGEM DO TEMA ESTÁ TOTALMENTE COMPROMETIDA

(Casos de fuga ao tema)

1. O candidato não trata de cordialidade.

2. O candidato não defende uma concepção positiva de cordialidade entre brasileiros.

OBS.: Os textos produzidos, independentemente do gênero escolhido, foram aceitos desde que considerassem as orientações do comando da redação.

REDAÇÃO

Contardo Calligaris, no texto, trata de uma suposta hipocrisia referente à cordialidade da classe média brasileira com seus subordinados, por ele chamada “cordialidade familionária”. Afirma “... que a cordialidade nacional é uma pantomima comunitária que quer esconder a crueldade das diferenças sociais. Uma maneira de amenizar a contradição social para deixá-la por mais um tempo irresoluta”. Considerando que existem outras motivações para manifestar cordialidade, além daquela evidenciada pelo autor, escreva um texto em prosa (com, no mínimo, 20 e, no máximo, 30 linhas) em que você defenda uma concepção positiva sobre as relações de cordialidade entre brasileiros.

CORDIALIDADE FAMILIONÁRIA

Almoço de domingo em um luxuoso restaurante de São Paulo. Mulheres, maridos, crianças, adolescentes, avós e sogras, todos – cada um a seu modo – obedecem às regras contemporâneas da diferença social. Ou seja, ostentam qualquer coisa para afirmar, confirmar e comunicar ao mundo a classe social da qual querem fazer parte. No conjunto, de qualquer forma, a ostentação é discreta. O Brasil ajuda: afinal, ninguém sai de casa piscando joias como uma árvore de Natal – é perigoso. A ostentação passa mais nas conversas. O pessoal briga sussurrando, chora atrás de óculos escuros, mas levanta a voz quando se trata de contar as últimas férias, o barco, o “apê” em Paris. Até aqui, nada de especificamente brasileiro. A modernidade liberal é ostentatória por definição. Para que o sistema funcione, não somos quase nada por essência ou por nascença. Passamos a existir só no olhar dos outros. Portanto, é preciso ostentar: bens, inteligência, saber, humor, até espírito crítico ou insatisfação. Qualquer coisa que nos qualifique e, assim, dividindo e compondo grupos, ordene a sociedade. Rapidamente, esse juízo estético-moral negativo se tornou banal: um verdadeiro traço do espírito moderno. Achar nosso mundo vulgar virou um modo de parecer diferente, quem sabe meio nobre. É, em suma, uma vulgaridade a mais. Os europeus, por exemplo, acham os americanos (todos, norte e sul-americanos) vulgares. É a maneira de se afirmarem como uma espécie de aristocracia do mundo ocidental. Na verdade, é bem possível que essa mesma presunção seja a maior vulgaridade europeia. Resta que continente americano nasceu com a modernidade e por isso mesmo não despreza os novos-ricos. Na casa do liberalismo moderno valemos o que mostramos: portanto, somos todos novos-ricos. O Brasil, em particular, apesar de sua modernização tardia, chegou a inventar um eufemismo para poupá-los: os emergentes. Os emergentes da última hora são sempre um pouco cômicos. Por mais que decorem Costanza Pascolato ou Glória Kalil, são traídos pela pressa, pelo excesso e pela sede infinita de reconhecimento. Mas todas essas são vulgaridades aceitáveis, inerentes à nossa cultura. Então, por que diabos, nesse restaurante paulista, sigo achando que uma parte de meus vizinhos são vulgares a ponto de me causar mal-estar? É algo que não concerne à ostentação. Meu mal-estar tem a ver com a maneira amigável com que eles tratam os garçons. Na verdade, quanto mais eles parecem cordiais, mais eu acho eles vulgares. Há um famoso exemplo de ato falho, narrado por Freud. Alguém quer dizer que foi tratado amigavelmente por um homem muito mais rico do que ele e comenta: Me tratou de maneira “familionária”. O que deixa pensar que, atrás da familiaridade, o sujeito percebera a condescendência paternalista e a distância de classe. Pois bem, talvez os brasileiros, por serem cordiais, se tratem com simpática familiaridade. Mas a cordialidade da classe média com os subordinados é “familionária”. Já foi notado várias vezes que a cordialidade nacional é uma pantomima comunitária que quer esconder a crueldade das diferenças sociais. Uma maneira de amenizar a contradição social para deixá-la, por mais um tempo irresoluta. Agora o país parece adotar as modalidades liberais da diferença social, isto é, nos dividimos em grupos e classes segundo riquezas e qualidades ostentadas. Viva a modernidade! Mas esse tipo de divisão social normalmente pressupõe que condições mínimas de mobilidade social sejam garantidas a todos. Sem isso, a cordialidade – que já era hipócrita – vira gozação. Uma espécie de piada obscena permanente. Somos modernos, globais, “jet-séticos” e, com isso, “benevolentes”, cordiais donos de engenho. No mesmo domingo, jantar em outro restaurante. Somos os últimos. Os garçons, exaustos depois do dia interminável, esperam apoiados contra as paredes. Quero ir embora, mas alguns amigos insistem, eles são conhecidos no restaurante: “Carlinhos, tem problema, dá pra ficar mais um pouco?”. E Carlinhos, naturalmente, diz que não: “Imagiiinaa”. Sinto as dores dos sapatos baratos, os calos imemoriais de quem serviu as mesas desde a manhã. Penso nos contratos de trabalho fajutos, nas horas extras nunca, ou mal pagas – ainda menos em plena crise do emprego. “Amigo, traz mais uma água para a gente?”. Mas qual amigo?(Contardo Calligaris. Folha de São Paulo - Folhailustrada, 12/04/1999. Adaptação)

Nenhum comentário:

Postar um comentário